Medicamento já usado contra Hepatite C pode curar infectados com zika

09/02/2018 | 10:04

 

Ainda sem cura, o vírus zika segue sendo uma ameaça à população por levar até a morte dos pacientes e também por suas consequências durante a gestação, uma vez que o vírus pode afetar os bebês ainda no útero, causando deformidades neurológicas, como a microcefalia. No entanto, uma nova descoberta científica pode mudar este cenário: um medicamento já usado na cura da Hepatite C pode ser eficaz para curar também pessoas afetadas pelo zika, incluindo gestantes. O remédio Sofosbuvir já é aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) - agência regulatória dos EUA para medicamentos - e os ensaios clínicos para o zika devem começar ainda este ano no Equador. O trabalho completo sobre esta descoberta foi publicado online no dia 19 de janeiro na Revista Scientific Reports, do grupo Nature. 
A descoberta de um tratamento efetivo para o zika, além de ser extremamente útil para as grávidas e para diminuir a incidência de crianças com alterações no crescimento e desenvolvimento devido à infecção pelo vírus - já são 3.037 casos confirmados de bebês afetados no Brasil desde novembro de 2015 até dezembro de 2017, segundo o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde -, também irá ajudar pessoas debilitadas que estejam infectadas e correm o risco de apresentar outras complicações, como a síndrome de Guillain-Barré (doença que faz com que o sistema imunológico do corpo ataque os próprios nervos, causando danos ao sistema nervoso). 
O estudo coordenado pelo brasileiro Alysson R. Muotri, biólogo molecular e professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, com participação da médica Patrícia Beltrão Braga, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ambos cofundadores da startup de biotecnologia TISMOO, testou os medicamentos utilizando uma tecnologia totalmente inovadora chamada Brain Model Technology (BMT), capaz de reproduzir o desenvolvimento embrionário humano através de células-tronco, os chamados minicérebros. 
Através de uma comparação genômica, os cientistas identificaram semelhanças nas polimerases (enzimas que sintetizam moléculas de RNA durante a replicação viral) do vírus da Hepatite C e do vírus zika. A partir dessa observação, buscaram drogas já aprovadas com o objetivo de inativar a enzima. Entre os medicamentos testados, o que apresentou melhores resultados nos minicérebros foi o Sofosbuvir. Também foram realizados testes em dois modelos animais. "Camundongos infectados pelo zika tratados com o medicamento conseguiram eliminar o vírus do organismo, apresentando níveis indetectáveis em diversos tecidos do corpo, incluindo o cérebro", comemora Alysson R. Muotri. 
Além disso, o estudo ainda descobriu a cura de contágio do zika pela gravidez. Testando o mesmo remédio em fêmeas grávidas, o medicamento funcionou muito bem - fazendo com que todos os filhotes nascessem sem o vírus -, bloqueando completamente a transmissão mãe-filhote. E não foi observada nenhuma toxicidade da droga para os filhotes nem para a mãe. "Esse fármaco é categorizado 'B' pelo FDA, o que significa que pode ser administrado em grávidas em situações de risco para o feto", diz Patrícia Braga. "Mães infectadas podem continuar contaminando seus filhos através do leite materno. É possível também que mesmo bebês sem microcefalia que nasceram de mães infectadas, possam ainda ter o vírus circulante no organismo. Essas crianças podem se beneficiar desse tratamento" complementa Muotri. 
São necessárias algumas etapas da pesquisa para garantir o resultado contra a doença e os efeitos dela em humanos. Outra boa notícia é que o medicamento é da Gilead (Sovaldi), empresa biofarmacêutica que tem histórico de negociações com países em desenvolvimento para fornecer a versão genérica de baixo custo dos remédios. O Dr. Muotri está preparando os ensaios clínicos no Equador, onde um novo surto de zika emergiu recentemente e preocupa as autoridades do país. 
A publicação deste estudo mostra como é importante o olhar voltado às novas tecnologias para a ciência ganhar agilidade nas descobertas e conseguir chegar até soluções efetivas para doenças e transtornos que impactam negativamente a sociedade. 
A tecnologia dos minicérebros, desenvolvida pela equipe de Alysson R. Muotri, é um enorme avanço na área da medicina, sendo vista como uma grande oportunidade de desvendar possíveis tratamentos para doenças neurológicas hoje incuráveis. Utilizando os minicérebros é possível recriar as etapas do desenvolvimento neural dos humanos, conseguindo capturar o material genético de cada indivíduo a fim de investigar como suas mutações levam a um quadro clínico específico e buscar novas formas de reverter o processo com tratamentos farmacológicos, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Nos próximos anos, as pesquisas realizadas com os minicérebros trarão um avanço revolucionário para a ciência e a saúde, já que a grande vantagem desse processo é a possibilidade viável de se testar fármacos sem utilizar o próprio paciente e, mesmo assim, conseguir definir um tratamento mais personalizado para cada indivíduo. 

Fonte: (Monitor Mercantil)