Notícia 11/12/2018 09:28

Cuidados paliativos: 70% poderiam ser tratados em casa

 Controlar sintomas como dor, náusea e vômito deveria estar ao alcance de todos

 Cada vez que escrevo sobre cuidados paliativos, fico com a sensação de que imediatamente as pessoas associam esse tipo de abordagem terapêutica a um paciente em seu leito de morte. No entanto, eles abrangem tudo o que pode ser oferecido à pessoa que tenha uma doença fora de possibilidade de cura, com o objetivo de melhorar a qualidade da sua existência – que pode se estender por muito tempo. “Na verdade, o cuidado paliativo é o bom cuidado a que todos deveriam ter direito. Esse é um assunto para todos”, resumiu a médica colombiana Tania Pastrana, presidente da Associação Latino-Americana de Cuidados Paliativos. Uma das autoras do “Atlas de Cuidados Paliativos da América Latina”, publicado em 2012, atualmente é pesquisadora da Universidade de RWTH Aachen, na Alemanha, onde faz pós-doutorado no departamento de medicina paliativa.

 “Estamos falando do controle de sintomas como dor, náusea, vômito, até medo. A comunicação com a família do doente é igualmente importante. Estudos mostram que, quando a família recebe informações corretas, sua confiança aumenta e ela lida melhor com a situação, aumentando também o número de dias da vida do paciente”, afirma a doutora. Ela explica que 70% poderiam receber esses cuidados em casa: “o hospital é para uma crise, uma situação aguda. Um número menor de idas ao hospital diminui os custos da saúde e, ao mesmo tempo, melhora a qualidade de vida do paciente”.

 Isso poderia acontecer se, nos postos de saúde, os médicos generalistas já se encarregassem dessa abordagem – o chamado primeiro nível de cuidados paliativos. O segundo nível ficaria para especialistas que lidam com doenças graves, de pediatras a oncologistas. Os paliativistas se encarregariam do terceiro nível, isto é, de casos mais complexos. “Na verdade, todos os profissionais cujo trabalho tem relação com a saúde deveriam ter formação em cuidados paliativos: além de alunos de medicina e enfermagem, também os de psicologia e serviço social, por exemplo”, diz a médica Tania Pastrana. Entretanto, no Brasil, apenas 14% dos cursos de medicina oferecem a disciplina, que não é sequer obrigatória na maioria.

 De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), na América Latina, que tem uma população de 615 milhões, 75% das mortes são causadas por doenças crônicas, ou seja, as pessoas não morrem subitamente e muitas convivem com a dor e o desconforto. Dos 3,5 milhões de mortes por ano, 60% dos indivíduos se beneficiariam se tivessem acesso a cuidados paliativos. Há cerca de 1.100 centros que oferecem esse serviço, 50% ligados a hospitais – quando o ideal é que estivesse na atenção primária de saúde. No Brasil, há apenas 170 serviços de cuidados paliativos, menos de 1 para cada milhão de habitantes, o que deve ser interpretado como sofrimento severo associado às enfermidades.

 A especialista cita bons exemplos como o do Panamá, que tem investido em atenção primária; e da Argentina e Colômbia, que ampliaram o acesso aos medicamentos. Na sua opinião, evitar que o paciente sinta sofra deveria ser uma prioridade: “esse é um problema de saúde pública e todo médico deveria dominar o tema. O risco de dependência é pequeno e pode ser controlado”. Aliás, o acesso global a remédios para o alívio da dor é o retrato da desigualdade: países como Estados Unidos e Canadá dispõem de um volume imenso de recursos, enquanto a escassez é quase absoluta em outras regiões do planeta.

Fonte: (G1)

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