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Notícia 26/02/2019

Por que isquemias cerebrais causam perda de memória?

 Hipocampo é uma das áreas mais vulneráveis do cérebro à falta de oxigênio 
A mensagem chegou no meio de um jantar a trabalho: ao final de uma defesa de doutorado onde ela participava como examinadora, minha mãe não sabia o que estava fazendo lá, não se lembrava de que eu moro fora do país, nem que já era professora aposentada. Pulei no primeiro avião, já um tanto tranquilizada de saber que, àquela altura, o lapso de memória estava se revertendo. Santa internet protetora dos angustiados: informação em tempo real é um grande remédio. 
Mas o assunto não é esse. Horas depois, ao lado dela no CTI, já com um diagnóstico de acidente isquêmico transitório (tradução a seguir) e tranquilizada com todas as evidências de que ela sabia onde estava e por quê e não fazia mais as mesmas perguntas a cada dois minutos, inevitavelmente comecei a me perguntar por que a perda transitória de memória recente é um sinal tão comum em episódios que envolvem comprometimento da oxigenação do cérebro (a neurocientista de plantão não sossega, sobretudo com a mãe no CTI). 
Porque isso é a isquemia cerebral: uma redução na chegada de oxigênio às células do cérebro, não importa se causada por entupimento de artérias, ataque cardíaco que prejudica a circulação, rompimento de vasos (hemorragia, vulgo derrame) ou hipertensão aguda extrema, onde os vasos ficam tão estrangulados que mal passa sangue que chegue aos neurônios. Minha mãe certamente é hipertensa e anda estressada, o que não ajuda em nada. Mas por que a perda de memória? 
É aqui que ser professora de neuroanatomia ajuda. Sem perda de atenção ou consciência, “perda de memória” recente, que faz a pessoa perguntar tudo repetidamente, é sinal de que o hipocampo está comprometido: a região do córtex que atua como central de associações, o bloquinho de notas sobre o que aconteceu ou se pensou recentemente que aguardam uma oportunidade de serem passadas a limpo para outras regiões corticais, e assim lembradas permanentemente, ou descartadas. Na falta de oxigênio suficiente, o hipocampo não consegue fazer qualquer registro novo; e os recentes, ainda no bloco de notas temporários, também se perdem. 
O hipocampo é tão mais vulnerável do que outras partes do cérebro porque ele está no fim da linha de uma artéria cerebral, e tem uma densidade especialmente grande de neurônios disputando quantidades limitadas de oxigênio. Sem seu bloquinho de notas, o dono do cérebro ainda tem os sentidos e movimentos funcionais —mas não os associa ao contexto nem guarda registros do que fez. 
A parte feliz do diagnóstico é o “transitório”. Passado o susto, mamãe vai bem de novo, obrigada! 

Fonte: (Suzana Herculano-Houzel ? Folha de S.Paulo)

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