Notícia 05/10/2017

RJ: Beneficência Portuguesa mudará perfil

Após ser arrematada em leilão judicial, Beneficência Portuguesa se tornará complexo médico e de ensino 


O complexo de hospitais da Beneficência Portuguesa foi entregue à Rede D Or, que está revitalizando o local - Ana Branco / Agência O Globo 
Instalações com quase 200 anos de história vão conviver com o que há de mais moderno em termos de tecnologia na área de saúde. Esse encontro já está em construção e se dará na Rua Santo Amaro, na Glória, onde funcionavam as antigas instalações da Beneficência Portuguesa, arrematada em leilão judicial por R$ 60 milhões pela Rede D’Or, em 2013. O complexo hospitalar tem planos ambiciosos para a área, que será transformada num centro integrado de assistência, ensino, pesquisa e inovação. 
— Será a maior unidade da rede no Rio, por isso teremos condições de atender a um universo mais abrangente de planos de saúde. Isso dará oportunidade de assistir a um conjunto de usuários que hoje não tem acesso aos nossos hospitais — afirma Marcelo Pina, diretor executivo da Rede D’Or e responsável pelo projeto, avaliado em R$ 300 milhões. 
A expectativa é que toda a obra seja concluída em cinco anos. De acordo com Pina, cerca de cinco mil profissionais das áreas de ensino e saúde serão contratados. 
Há um desafio, porém. Entre as edificações do terreno de 42 mil metros quadrados existem as que são tombadas pelo patrimônio histórico. Portanto, não podem ser reformadas, apenas restauradas. 
— Já demos entrada no Instituto do Patrimônio Histórico Municipal, e o pedido passará pelo crivo e pela aprovação da prefeitura. O que vamos fazer é revitalizar uma estrutura histórica que está completamente degradada. Elaboramos um projeto que respeita e mantém as características arquitetônicas do conjunto, buscando otimizar as edificações — diz Pina. 
O pedido de restauração das áreas tombadas já foi enviado para a Secretaria municipal de Urbanismo (SMU). Em seguida, será encaminhado para avaliação e aprovação do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e para o Conselho de Proteção do Patrimônio Cultural (CMPC). 
— Vemos como uma excelente iniciativa a Rede D’Or se interessar pelo imóvel, uma vez que ele foi construído para ser um hospital e dificilmente se conseguiria fazer uma adaptação desses usos para outros fins. É um conjunto de edificações muito interessante e eclético, com arquiteturas bastante distintas, que remontam do século XIX à segunda metade do século XX — explica André Zambelli, coordenador de monitoramento e fiscalização do IRPH. 
Ele conta que o processo até a aprovação da restauração pode levar cerca de 30 dias a partir do momento em que o IRPH receber o pedido de análise, o que vai depender do nível de intervenção a ser feita nas instalações. 
— Algumas modificações na planta deverão ser necessárias para adequarem os imóveis protegidos aos novos usos. Após a aprovação do projeto de restauração, os técnicos do IRPH farão o acompanhamento periódico das obras — afirma Zambelli. 
Depois de um longo trabalho de limpeza e retirada de entulho — foram 160 caminhões de resíduos removidos do local —, as obras da primeira fase começaram, com 200 operários trabalhando a todo vapor. Elas foram iniciadas pelo maior prédio do complexo hospitalar (que não é tombado), datado de 1972 e batizado de Hospital Santa Maria. Inaugurado pelo então presidente de Portugal, Américo Thomaz, oferecia 473 leitos. Na nova etapa, que deve estar concluída em dois anos, vai concentrar toda a área hospitalar da unidade, gerando três mil empregos diretos. A capacidade será para aproximadamente 500 leitos. 
— Estamos fazendo um retrofit, que é um processo de modernização, mas sem impacto arquitetônico ou intervenção externa. Depois, vamos adequar aos padrões de exigência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como os tamanhos de janelas e portas (estas têm 80cm de largura e ficarão com 120cm) — comenta Marcelo Pina. 
As duas enfermarias históricas, construídas em 1890, vão receber o Centro de Educação Superior, que vai contemplar uma faculdade de Medicina e outra de Enfermagem. Em pleno funcionamento, os cursos terão capacidade para atender até dois mil estudantes. 
— Nossos alunos terão acesso a parcerias com os maiores centros formadores do mundo. Com isso, objetivamos a melhoria contínua no atendimento hospitalar em todo o estado — diz Pina. 
Outro braço da rede que vai funcionar nas antigas instalações da Beneficência Portuguesa é o Instituto D’OR de Pesquisa e Ensino (IDOR). Atualmente, ele tem linhas de pesquisa voltadas para neurociência, medicina intensiva, oncologia e pediatria. 
— A produção científica dos pesquisadores do IDOR é expressiva — afirma Pina. 
Ela ressalta que uma das pesquisas de destaque do instituto foi sobre a relação entre o vírus da zika e a microcefalia. O estudo, realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi publicado em março de 2016 na revista americana “Science”. 
— A partir de células-tronco humanas reprogramadas, nove cientistas criaram organoides cerebrais, também conhecidos como minicérebros e similares ao cérebro humano em desenvolvimento. O próximo passo foi infectar estas estruturas com o zika a fim de observar as consequências para a formação do cérebro fetal — conta. 
Segundo Pina, somente entre o processo de leilão e posse definitiva do terreno foram quatro anos. Uma equipe de engenheiros e arquitetos trabalhou outros três anos para concluir o projeto e definir o que precisava ser preservado, o que seria transformado e o que mudaria totalmente, conservando as características. 
Beneficência continua atendimento 
Fundado em 1840, o hospital da Beneficência Portuguesa se consagrou como uma referência em atendimento na área de saúde no Rio. Suas instalações chegaram a oferecer mais de mil leitos. Ser sócio de lá era para poucos. O pagamento em parcela única dava direito à cobertura médica total, do parto ao enterro. Com o passar dos anos, afundada em dívidas, a Beneficência perdeu prestígio e, por fim, seu imponente terreno. Os sócios, que já chegaram a 25 mil, agora estão em fase de recadastramento. Mas estima-se que sejam em torno de três a cinco mil atualmente. Desde o final do ano passado, eles estão sendo atendidos num espaço alugado em Laranjeiras que funciona como uma clínica. 
— A Beneficência ainda tem um asilo em Jacarepaguá que atende cerca de 80 idosos — conta o advogado da instituição, Eduardo Correa, garantindo que, apesar das dificuldades, encerrar as atividades está fora de cogitação. — A situação já estava ruim há algumas décadas e piorou com a perda do complexo hospitalar. Mas a instituição não vai acabar. 
Nos anos 1990, más gestões, falta de transparência e demissões em massa fizeram a Beneficência Portuguesa mergulhar em dívidas, que chegaram a ser estimadas em R$ 200 milhões (destes, R$ 160 milhões eram relativos a passivos trabalhistas). O advogado Eduardo Correa, porém, não confirma os valores. 
A instalação da Rede D’Or e seus planos de desenvolvimento para a região são motivo de comemoração para os moradores. Muitos presenciaram o período de auge e de decadência da Beneficência Portuguesa. 
— Minha irmã trabalhou no hospital, e era um movimento danado. Tínhamos orgulho de ter um local de referência em saúde no nosso bairro. Foi muito triste quando a Beneficência parou de funcionar — lembra Jorge Mendes, presidente da Associação de Moradores e Amigos da Glória (AMA Glória). — Nós vemos com alegria a novidade. 
Ele conta que uma de suas maiores preocupações era ver todo o acervo histórico encontrado nas dependências do imóvel se perder com o fechamento daquela unidade da Beneficência. 
— Seria uma tragédia para a cidade, e, em especial, para a Glória, que é um bairro com um considerável acervo. Bom saber que toda essa riqueza cultural será preservada — conclui Mendes.

Fonte: (Patricia de Paula - O Globo)

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